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as meninas

as minhas filhas nadam. a mais nova 
leva nos braços bóias pequeninas, 
a outra dá um salto e põe à prova 
o corpo esguio, as longas pernas finas: 

entre risadas como serpentinas, 
vai como a formosinha numa trova, 
salta a pés juntos, dedos nas narinas, 
e emerge ao sol que o seu cabelo escova. 

a água tem a pele azul-turquesa 
e brilhos e salpicos, e mergulham 
feitas pura alegria incandescente. 

e ficam, de ternura e de surpresa, 
nas toalhas de cor em que se embrulham, 
ninfinhas sobre a relva, de repente. 

Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos" 

Pequenina

Eu bem sei que te chamam pequenina 
E ténue como o véu solto na dança, 
Que és no juizo apenas a criança, 
Pouco mais, nos vestidos, que a menina... 

Que és o regato de água mansa e fina, 
A folhinha do til que se balança, 
O peito que em correndo logo cansa, 
A fronte que ao soffrer logo se inclina... 

Mas, filha, lá nos montes onde andei, 
Tanto me enchi de angústia e de receio 
Ouvindo do infinito os fundos ecos, 

Que não quero imperar nem já ser rei 
Senão tendo meus reinos em teu seio 
E súbditos, criança, em teus bonecos! 

Antero de Quental, in "Sonetos" 



Algumas Proposições com Crianças

A criança está completamente imersa na infância 
a criança não sabe que há-de fazer da infância 
a criança coincide com a infância 
a criança deixa-se invadir pela infância como pelo sono 
deixa cair a cabeça e voga na infância 
a criança mergulha na infância como no mar 
a infância é o elemento da criança como a água 
é o elemento próprio do peixe 
a criança não sabe que pertence à terra 
a sabedoria da criança é não saber que morre 
a criança morre na adolescência 
Se foste criança diz-me a cor do teu país 
Eu te digo que o meu era da cor do bibe 
e tinha o tamanho de um pau de giz 
Naquele tempo tudo acontecia pela primeira vez 
Ainda hoje trago os cheiros no nariz 
Senhor que a minha vida seja permitir a infância 
embora nunca mais eu saiba como ela se diz 

Ruy Belo, in "Homem de Palavra[s]" 

No Fim do Verão

No fim do verão as crianças voltam, 
correm no molhe, correm no vento. 
Tive medo que não voltassem. 
Porque as crianças às vezes não 
regressam. Não se sabe porquê 
mas também elas 
morrem. 
Elas, frutos solares: 
laranjas romãs 
dióspiros. Sumarentas 
no outono. A que vive dentro de mim 
também voltou; continua a correr 
nos meus dias. Sinto os seus olhos 
rirem; seus olhos 
pequenos brilhar como pregos 
cromados. Sinto os seus dedos 
cantar com a chuva. 
A criança voltou. Corre no vento. 

Eugénio de Andrade, in 'O Sal da Língua' 



Menino

No colo da mãe 
a criança vai e vem 
vem e vai 
balança. 
Nos olhos do pai 
nos olhos da mãe 
vem e vai 
vai e vem 
a esperança. 

Ao sonhado 
futuro 
sorri a mãe 
sorri o pai. 
Maravilhado 
o rosto puro 
da criança 
vai e vem 
vem e vai 
balança. 

De seio a seio 
a criança 
em seu vogar 
ao meio 
do colo-berço 
balança. 

Balança 
como o rimar 
de um verso 
de esperança. 

Depois quando 
com o tempo 
a criança 
vem crescendo 
vai a esperança 
minguando. 
E ao acabar-se de vez 
fica a exacta medida 
da vida 
de um português. 

Criança 
portuguesa 
da esperança 
na vida 
faz certeza 
conseguida. 
Só nossa vontade 
alcança 
da esperança 
humana realidade. 

Manuel da Fonseca, in "Poemas para Adriano" 

A Criança que Pensa em Fadas

A CRIANÇA que pensa em fadas e acredita nas fadas 
Age como um deus doente, mas como um deus. 
Porque embora afirme que existe o que não existe 
Sabe como é que as cousas existem, que é existindo, 
Sabe que existir existe e não se explica, 
Sabe que não há razão nenhuma para nada existir, 
Sabe que ser é estar em algum ponto 
Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer. 

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos" 
Heterónimo de Fernando Pessoa  

Dois Meninos

Meu menino canta, canta 
Uma canção que é ele só que entende 
E que o faz sorrir. 

Meu menino tem nos olhos os mistérios 
Dum mundo que ele vê e que eu não vejo 
Mas de que tenho saudades infinitas. 

As cinco pedrinhas são mundos na mão. 
Formigas que passam, 
Se brinca no chão, 
São seres irreais... 

Meu menino d'olhos verdes como as águas 
Não sabe falar, 
Mas sabe fazer arabescos de sons 
Que têm poesia. 

Meu menino ama os cães, 
Os gatos, as aves e os galos, 
(São Francisco de Assis 
Em menino pequeno) 
E fica horas sem fim, 
Enlevado, a olhá-los. 

E ao vê-lo brincar, no chão sentadinho, 
Eu tenho saudades, saudades, saudades 
Dum outro menino... 

Francisco Bugalho, in "Canções de Entre Céu e Terra"  


2016-06-01
Atualizado a 2016-06-01

Dia da Criança

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