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O olhar é um pensamento

Tudo assalta tudo,e eu sou a imagem de tudo.
O dia roda o dorso e mostra as queimaduras,
a luz cambaleia,
a beleza é ameaçadora
-não posso escrever mais alto
transmitem-se,interiores,as formas.



O Poema
 
Um poema 
cresce inseguramente 
na confusão da carne. 
Sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto, 
talvez como sangue 
ou sombra de sangue pelos canais do ser. 

Fora existe o mundo. Fora, a esplendida violência 
ou os bagos de uva de onde nascem 
as raízes minúsculas do sol. 
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis 
do nosso amor, 
rios, a grande paz exterior das coisas, 
folhas dormindo o silencio 
a hora teatral da posse. 

E o poema cresce tomando tudo em seu regaço. 

E já nenhum poder destrói o poema. 
insustentável, único, 
invade as casas deitadas nas noites 
e as luzes e as trevas em volta da mesa 
e a força sustida das cisas 
e a redonda e livre harmonia do mundo. 
Em baixo o instrumento perplexo ignora 
a espinha do mistério 
- E o poema faz-se contra a carne e o tempo.

Aos amigos
 
Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
-Temos um talento doloroso e obscuro.
construímos um lugar de silêncio.
De paixão.

O autor...

Herberto Helder de Oliveira
 (Funchal, São Pedro, 23 de Novembro de 1930 - Cascais, 23 de Março de 20151 ) foi um grande poeta português.

"De certo modo, a poesia de Herberto Helder, nas suas anacronias, no encontro que nela se dá entre o mais contemporâneo e o mais antigo (uma antiguidade sem datas) obriga a colocar esta questão: será que ainda é possível a poesia num mundo completamente secularizado? A sua poesia restitui algo que nós, ainda que não o saibamos formular com exactidão, sabemos que foi perdido ou só já tem uma existência secreta e remota. E disso se alimentaram também as projecções e imagens públicas a que se prestou a figura de Herberto Helder enquanto poeta".
in Público

2015-03-25

Poesia com Herberto Helder

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