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Num labirinto de fios coloridos...

Fui em jeito de passeio. Paul, lá para os lados da Covilhã, cheirava a ares da serra e segredava promessas de história e tradição. Depois, era em Paul, que vivia o senhor Zé das mantas de Ourelos. Aquelas que nos lembram os melhores piqueniques familiares.

Nesse verão de 2010, o Sr. Zé, então com 85 anos, aguardava-me, num labirinto de fios coloridos. Para mim as artes antigas têm qualquer coisa de código secreto que é preciso descobrir, urgentemente, e registar.

O Sr. Zé é mestre na arte de fazer mantas de Ourelos. E, caso nada comum, o tear onde costumava entrelaçar as linhas dos novelos e da vida foi fabricado por ele próprio.
Em casa, onde nos encontrámos, tem três teares construídos com as próprias mãos. Um deles foi construído com várias peças de teares trazidos da Fábrica das Taliscas, empresa onde os pais trabalharam; os outros foram construídos de raiz pelo Sr. Zé, com a destreza e o engenho que sempre o distinguiram.

Mantas de Ourelos, passadeiras, tapetes, cobertores e mantas da serra (usadas pelos pastores como agasalho) são algumas das peças “riscadas”, sabiamente, pelas mãos do artesão.
Na oficina os teares mostram-se, grandiosos, com a nobreza da idade.

Memórias
Neste lugar, onde o tempo quase sobra, comprovámos: as conversas são como as cerejas e ainda bem.
O Sr. Zé desfia palavras sobre a vida e o desejo que sempre teve de “voar”. E, de certa forma, criar é isso mesmo.

Ao longo dos anos as lições foram-se encadeando, mas nunca lhe disseram: “anda cá Zé, vais aprender a tecer os fios". Aprendeu sozinho a arte, enquanto estava atento aos ensinamentos que chegavam, naturalmente, de algumas pessoas próximas. Foi o caso de um tio que era carpinteiro, o senhor "Luís Tamanqueiro que fazia teares como ninguém”.
Ainda miúdo, queria “ver como era” e, apesar do tio não gostar muito, “ia para o pé dele, para aprender", compreendendo, rapidamente, "como juntar as peças todas”. Anos mais tarde, o próprio tio chegou a vender os engenhos produzidos por ele.

Dentro desta roda dos afetos, "Jaquim Janica" também era artista. Foi com este carpinteiro que o Sr. Zé abriu o livro da técnica. O fascínio da arte levou-o a construir o seu 1º tear em 1948, embora trabalhasse em teares desde 1944, com um tear emprestado da Fábrica das Taliscas, "fábrica com mais de 500 anos”.

Entretanto, foi tecendo outros sonhos. Casou com 21 anos, quando veio da tropa. A mulher, Maria Capitolina Gouveia, tinha 20 na altura. É com saudades que se refere a este amor: "companheira de uma vida, tão boa, nunca lhe conheci uma mentira. Andávamos sempre os dois, juntos para cima e para baixo”.

Ao longo da singular trajetória, foi fazendo vários ziguezagues profissionais (trabalhou na Mina da Panasqueira, na Covilhã, nas lides do campo em Torres Novas,  como canalizador, para a Junta de Freguesia do Paul, ou nas obras, quando emigrou para França), mas acabou por voltar aos teares, a sua grande paixão, até porque “quem anda por gosto não cansa”! Ia muitas vezes para a Covilhã "com as teias às costas, mais a minha mulher". Os que tinham dinheiro alugavam burros, 5$00 nessa altura, mas "eu e a minha mulher levávamos cortes de 20kg às costas", trabalhando "para quem nos desse teia".

Assim ia ganhando sabedoria e a vida
: “chegávamos a ter dias de nos pormos a pé às 4 da manhã e ficávamos a trabalhar até às 11 da noite. Tínhamos de seroar e madrugar”, diz. Depois "levávamos ao Patrão para eles nos pagarem o trabalho". 
Entre palavras e silêncios, o Sr. Zé foi cosendo os retalhos de uma vida inteira... E eu fui mergulhando nos diversos pedaços desta história real, nas linhas coloridas onde moram vozes e memórias, com a curiosidade da criança que existe dentro de mim. E um sorriso agradecido.

Manta de Ourelos:
Manta de Ourelos, são as mantas de retalhos, restos de trapos, enrolados e juntos com linha uns aos outros. Ficam com um aspeto muito colorido, depende dos trapos, e têm um peso enorme, ótimas para as noites de inverno frias, para fazer peso (calor). Também são utilizadas para a apanha da azeitona, para agasalho nas lides do campo ou para fazer piqueniques no verão.


Materiais Utilizados: Fio, lã, retalhos, trapos.



Texto: Olga Faria
Fotos: Alexandre Aurélio


Trabalho original escrito em 2010
Divulgado no N'coisas nossas a 05/08/2013

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