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A arte de bordar...

No desfiar dos dias da minha infância acordei muitas vezes ao som da música da agulha e do dedal. A minha mãe, como muitas bordadeiras, madrugava para, com arte e engenho, "pintar" os pormenores desenhados no lençol, que, carinhosamente, se abraçava ao papelão. 

Além de profissão (revelada pelos pedacinhos de linha sempre agarrados à roupa), bordar era um desafio à criatividade. À exigência e à perseverança. No fim, o resultado: traços e detalhes de peças especiais, que seriam recheio de um baú e de uma casa feliz.  
Há uns anos, quando se entrava na adolescência, os olhos deviam voltar-se para o enxoval.... Era necessário encontrar os melhores "fios", cores e texturas, para que tudo estivesse pronto até ao G-R-A-N-D-E dia. Não podiam faltar os magníficos lençóis de cama ou requintadas toalhas de mesa, peças bordadas artesanalmente pelas próprias, ou por alguém muito próximo.

A minha aldeia situa-se entre a teia de freguesias deitadas à volta do Rio Sousa, numa região em que gerações de bordadeiras conciliaram, ao longo de mais um século, as tarefas da vida doméstica e familiar com a atividade de bordar. Terreno fértil, portanto, para adquirir conhecimentos numa simples conversa...

Corria o ano de 2008. Num domingo soalheiro, sentei-me à conversa com uma das mais antigas bordadeiras da minha aldeia, a tia Joaquina, na altura, com 85 anos. De ponto em ponto, desfiamos diversas curiosidades sobre esta arte tão nobre. Trabalho que exigia muita dedicação durante dias a fio, para se terminar um lençol, onde no branco do tecido, se desenhariam minuciosos motivos, a revelar um labor pleno de harmonia e delicadeza.

Bordadeira desde pequenita”, conta, quando a mãe a punha “a alinhavar richelieu (ponto de bordado apresentado na foto), não havia tempo para brincar”!

Era um saber que passava de mães para filhas - estas pegavam na agulha e no dedal ainda novinhas, no sentido de ajudar economicamente a casa, por um lado, e de assegurar a aprendizagem do que seria mais tarde o seu ganha-pão, por outro. Mas nem todas teriam jeito para os bordados e era nos primeiros trabalhos que se previa qual a habilidade artística da aprendiza. Começavam pelos pontos mais simples para passarem para pontos que exigiam uma maior minúcia e destreza.

Embora a tia Joaquina fosse bordadeira “de dedo” e de coração, nas Terras do Vale de Sousa, havia uma técnica única, em que o tecido era cosido àquilo a que se chama o papelão. Trata-se de um engenho invulgar – não se encontra qualquer analogia nas outras regiões portuguesas produtoras de bordado.

Não serão todas, mas as bordadeiras das Terras de Sousa, muitas mais do que se possa imaginar, dominam, e muito bem, mais de 200 diferentes pontos de bordar.
Contudo, quando se questionam as bordadeiras sobre os diversos pontos existentes (foi aliás o que aconteceu na conversa que tive com a minha tia), existe uma grande barreira: o facto de todo o ensino ter sido feito em contexto familiar reduziu ao mínimo as necessidades de uma nomenclatura própria. Não era preciso nomear ou escrever nada, pois muitas das bordadeiras eram analfabetas: era só olhar e aprender a fazer com a ajuda da mãe, da tia, irmã mais velha ou vizinha.

É assim que à falta de um léxico específico que acolha, em Português, todos os diferentes pontos de bordar, se acresce o facto de uma larga maioria de pontos não ter sequer nome próprio. A título de exemplo, são exceção os ilhós (feito em ponto de rolinho), as aranhas, as plantas, os amorzinhos, entre outros.

António Teixeira de Sousa (SOUSA, António Teixeira de, Bordados e Rendas nos Bragais de Entre-Douro e Minho, Ed. Programa das Artes e Ofícios Tradicionais, 1994)explora a origem e filiação do bordado que, desde há tanto tempo, se produz: “As senhoras dos solares e das casas solarengas desta região (minhota) tiveram, portanto, um papel de relevo na implantação local e no desenvolvimento desta indústria doméstica. Este facto pôde ser, aliás, confirmado pelo testemunho directo de pessoas muito idosas e, também, pela descoberta de bordados com carácter erudito ou semi-erudito, desenhados e produzidos por mulheres do povo, totalmente analfabetas." 

Uma certeza: continua a ser muito bom ouvir a musicalidade genuína da agulha e do dedal... Embora, nos dias que correm, encontrar uma bordadeira seja quase uma descoberta...









Texto: Olga Faria
Foto: Alexandre Aurélio

2013-07-29
Atualizado a 2016-06-02

Ao som da agulha e do dedal

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